Referência  em  FISIOTERAPIA  na  Internet

 www.fisioweb.com.br 


Trabalho realizado por:
Rodrigo Rivelino Pereira Rangel

Trabalho realizado à disciplina de Estágio II no curso de Fisioterapia da Universidade Salgado de Oliveira, ministrado pelo professor Blair José Rosa Filho, como um dos requisitos de avaliação. 


ABORDAGEM FISIOTERAPÊUTICA NA ASMA - Aspectos Ventilatórios


Introdução

A asma brônquica é caracterizada por obstrução difusa das vias aéreas, situada principalmente, a nível bronquiolar. A hipersensibilidade a alérgenos extrínsecos inalados ou a agentes infecciosos intrínsecos do aparelho respiratório é considerada - na maioria dos pacientes - como desencadeadora das alterações fisiopatológicas. Entretanto uma vez que o padrão reacional asmático se tenha estabelecido, reações psicofisiológicas, fumaça, emanações, cansaço físico e variações da temperatura e da umidade do ar podem provocar crise.

As manifestações clínicas da asma podem aparecer devido a fatores específicos e a influências inespecíficas. Esses fatores são responsáveis pela etiologia da asma A hereditariedade é um dos fatores constitucionais, sem dúvida o mais importante na asma alérgica é o fator genético. Os filhos de pais asmáticos parecem ter uma tendência maior de apresentar asma do que outras condições alérgicas. Os fator endócrino é um outro fator de importância já que as experiência e a observação clínica sugerem que a disfunção de certos órgãos endócrinos influencia o curso clínico da asma. Os exercícios podem ser tanto terapêutico como fator etiológico, já que a falta de ar durante o esforço físico é u problema mais atribuído à falta de capacidade física do que à asma. Os alérgenos, principalmente o pólen é o desencadeador mais conhecido embora os animais, especialmente os dos gatos e dos cavalos causam importantes crises, sendo que a exposição a longo prazo com animais é a causa de sintomas crônicos. A poeira domiciliar é um dos mais importantes antígenos respiratórios. A poeira domiciliar consiste em substâncias derivadas da deteriorização e degradação de vários materiais e produtos manufaturados e contém princípios alergênicos, como fragmentos de insetos, epiderme descamada do homem e de animal, resíduos de alimentos, penas, fungos, etc. Alguns estudos demonstram que certos ácaros são invariavelmente encontrados na poeira domiciliar e representam a maior fonte de seu poder alergênico. Outros fatores como a fumaça de cigarro é um desencadeador tão importante quanto os ambientes empoeirados onde o pó age como um irritante. Os odores não são considerados alergenos, pois o que ocorre possivelmente é uma reação irritante aos produtos químicos envolvidos. Os resfriados e viroses, Infecções virais são os desencadeadores de asma mais comuns, principalmente quando se leva em consideração a faixa etária. As emoções, excitações, desgostos, estresses, também são desencadeadores da asma. O clima e a poluição são outras classes de fatores causadores da asma.

As características obstrutivas da asma decorrem, principalmente, de duas alterações físicas nas vias aéreas, que aumentam a resistência ao fluxo gasoso: irregularidade em suas paredes e seu estreitamento luminal por espasmo da musculatura lisa. Irregularidades discretas nas vias aéreas mais calibrosas - como nos brônquios - aumentam resist6encia ao fluxo por produzirem turbulência. O sinal físico desta situação é o chiado audível. Nas vias de menor calibre, a turbulência se é que ocorre, é menos importante e a viscosidade do ar se torna predominante, devido ao grau extremo de estreitamento bronquiolar.


Esse estreitamento é causado por, pelo menos três fatores. O primeiro é a reação inflamatória, com seu acompanhamento de ingurgitamento vascular, edema, infiltração leucocitária e eventual proliferação fibroblástica. O segundo é a secreção excessiva e tenaz, produzida pelas glândulas mucosas hiperativas. Esse material viscoso adere, estreita, bloqueia e produz irregularidades e espessura aumentada das paredes dos brônquios e bronquíolos. Finalmente, o terceiro é a constrição do músculo liso da parede brônquica.

Baseando-se nas alterações anteriormente descritas, é possível prever que uma crise asmática se caracteriza pela dificuldade respiratória acompanhada de respiração sibilante, que é particularmente distinta pelo alongamento da fase respiratória. O paciente se esforça para encher os pulmões de ar e depois não consegue expulsá-lo, ocorrendo conseqüentemente uma hiperinsuflação progressiva dos pulmões. O ar fica aprisionado por traz dos tampões mucosos. Nos casos clássicos, o ataque agudo dura de uma há várias horas e é seguido por tosse duradoura, com expulsão de secreção mucosa abundante e considerável alívio da dificuldade respiratória. Em alguns pacientes estes sintomas persistem em baixo nível por todo o tempo. Na sua forma mais grave, o estado asmático, o paroxismo agudo persiste durante dias e até mesmo semanas, e nesta circunstancia a função ventilatória pode ser tão prejudicada a ponto de causar uma grave cianose ou até mesmo a morte.

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas que por inúmeros fatores podem levar a um quadro de exacerbação. É um importante problema de Saúde Pública em todo o mundo e tem sido causa de sofrimento tanto para os paciente quanto aos familiares dos portadores. É uma das principais causas de absenteísmo na vida escolar e profissional, seja pelas noites de sono perdidas como por franca crise; pode limitar a vida social e a produtividade; é causa de desagregação familiar, de faltas de trabalho, levando a repercussões bio-psico-socio-econômico, além de ser responsável pela utilização do serviço de saúde, motivando atendimentos repetidos em pronto-socorros e ambulatoriais, hospitalizações e alto custo para a manutenção e controle de exacerbações por parte dos portadores, da comunidade e dos governos. É causa de antecipadas aposentadorias, pensões e benefícios, e que acima de qualquer repercussão pode levar a morte.

A prevalência é uniforme para qualquer raça etnia, sexo, porém, segundo dados da Organização Mundial de Saúde - OMS os indivíduos mais acometidos estão em fase pré-escolar e escolar, ou seja, jovem de meia idade. A OMS estima que 100 a 150 milhões de pessoas em todo o mundo ( 4% a 12% da população ), sofrem de asma e que estes índices tendem se elevar principalmente, em crianças.

A asma é reconhecidamente uma doença que traz importante fator de custo e deve-se considerar que os gasto hospitalares representam elevados, tanto quanto os familiares e as internações de repetição se torna um fator psicologicamente depressivo aos portadores do mal.

Entretanto, a abordagem diferencial diante de tal situação se faz necessário, visando uma melhor abordagem no atendimento hospitalar, direcionando com maior eficácia a terapêutica, contudo, é justamente neste ponto que muitos se contradizem, havendo, portanto a necessidade de um maior conhecimento acerca dos mecanismos fisiopatológicos, da patogênese e patogenia da asma, favorecendo uma maior eficácia e resposta à terapêutica aplicada.

O asmático pode entrar em insuficiência respiratória aguda e necessitar do apoio especializado em centros de terapia intensiva, onde haja recurso necessário para possível respiração assistida, dosagem de gases sanguíneos arteriais, monitorização radiológica, lavagem brônquica entre outras abordagem.

E é no contexto da insuficiência aguda que o asmático pode vir a desencadear que desenvolve-se este trabalho, visando abordar os aspectos ventilatórios na ventilação mecânica neste paciente. E é somente a partir do entendimento da fisiopatologia da asma que se adquire meios de abordar adequadamente uma terapêutica fisioterápica, sendo assim:


Fisiopatologia 

O entendimento da fisiopatologia da asma aguda é importante para a orientação da escolha das medicações a serem utilizadas e, em relação ao manejo da ventilação pulmonar mecânica. A fisiopatologia básica da maioria dos casos de asma aguda inclui a inflamação da mucosa da via aérea, o broncoespasmo e a presença de rolha de muco. 

As exacerbações dos episódios de asma ocorrem após a exposição da criança a uma variedade de fatores como: alergenos inalatórios, fumaça de cigarro, poluentes ambientais, estresse, infecção viral, refluxo gastroesofágico, exercício e medicações. Estes fatores desencadeiam a liberação de mediadores inflamatórios como a histamina, leucotrienos, citocinas pró-inflamatórias e fator ativador de plaquetas, a partir dos mastócitos da mucosa, o qual ocasionam inicialmente broncoconstrição. Nas horas seguintes existe um aumento da resposta inflamatória com migração das células inflamatórias para a parede do brônquio resultando em broncoconstrição adicional, aumento da produção de muco, aumento da permeabilidade vascular ocasionado obstrução progressiva ao fluxo aéreo, aprisionamento de ar, atelectasia, alterações da relação ventilação/perfusão, hipoxia e hipercapnia. 

Podem ocorrer efeitos secundários no débito cardíaco devido a hiperinsuflação dos pulmões, diminuindo a pré-carga de átrio direito, aumentado a resistência vascular pulmonar e diminuindo a pré-carga do ventrículo esquerdo. Adicionalmente, o aumento acentuado da pressão negativa intratorácica durante o estado de mal asmático aumenta a pós-carga do ventrículo esquerdo. Este aumento combinado com a diminuição de enchimento do ventrículo esquerdo (ocorre secundariamente devido ao desvio do septo interventricular da direita para a esquerda) ocasiona uma diminuição relativa no débito cardíaco com a inspiração e um aumento subseqüente com a expiração, produzindo o sinal clínico de aumento do pulso paradoxal.


* Ventilação não Invasiva com Pressão Positiva 

A utilização da ventilação não invasiva com aplicação de máscara facial é uma opção terapêutica para suporte ventilatório de curto prazo na criança com falência ventilatória hipercápnica, mas ainda em condições de manutenção da via aérea permeável. O objetivo desta modalidade de ventilação é o de dar algum tempo para a otimização dos agentes farmacológicos utilizados previamente. O suporte ventilatório não invasivo tem como vantagens: diminuir a necessidade sedação, diminuir o risco de infecção nosocomial e melhorar o desconforto do paciente. Algumas desvantagens incluem: risco de aspiração do conteúdo gástrico, necrose de pele devida a pressão da máscara e sensação de claustrofobia.

Os dados a respeito da eficácia da ventilação não invasiva no estado de mal asmático são escassos. Um estudo de Shivaram U et al, 1993, em vinte e um pacientes com asma aguda analisou a aplicação de pressão positiva contínua em vias aéreas (CPAP) com níveis de 5 ou 7.5 cmH2O, observando-se uma diminuição significante da freqüência respiratória e da dispnéia. Posteriormente, Meduri GU et al, 1996, relataram a sua experiência com a ventilação não invasiva em dezessete episódios de pacientes com asma aguda grave. Estes autores utilizaram inicialmente uma ventilação com suporte de pressão de 10 cmH2O e zero cmH2O de CPAP, posteriormente a CPAP foi aumentada para 3 e para 5 cmH2O, assim como a ventilação com pressão de suporte aumentada para obter um volume corrente exalado de 7ml/kg ou mais e uma freqüência respiratória inferior a 25irpm. Obtiveram como resultado uma melhora na dispnéia, gasometria arterial, freqüência cardíaca e freqüência respiratória.


* Ventilação Pulmonar Mecânica 

Existe um risco considerável com a aplicação da ventilação com pressão positiva em pacientes com asma aguda grave. Ela está associada com taxas de mortalidade de 10 - 38%. Um relato de Darioli R. et al, 1985 33 não verificou a ocorrência de óbito empregando-se uma tática ventilatória com hipoventilação controlada. Estas altas taxas de mortalidade sofrem uma influência significante dos altos picos de pressão de via aérea gerados durante a ventilação pulmonar mecânica que ocasionam: ventilação inadequada, alterações circulatórias ou barotrauma/volutrauma. Em vista disto, os critérios para indicá-la são muito restritos e limitados ao estágio final de fadiga (exaustão) e não a dados gasométricos de uma simples hipercapnia. Quando a ventilação pulmonar mecânica é necessária deve-se minimizar o máximo possível o emprego de altas pressões de via aérea. Deve-se oferecer uma fração inspirada de oxigênio de 100% antes da intubação, assim como uma oferta de líquidos de 10 ml/Kg para se melhorar o retorno venoso que inicialmente está muito alterado devido a aplicação da pressão positiva. 

A técnica mais segura de intubação traqueal do paciente asmático é a de se realizar o procedimento com o paciente "desperto". Devido a agitação conseqüente à dispnéia intensa, provocada pela crise asmática, e pela consciência muitas vezes preservada, torna-se difícil a intubação destes pacientes. Para facilitação desta, pode-se adotar a seguinte seqüência:

> Informação e tranquilização do paciente;
> Monitorização: oximetria de pulso, cardioscópico, pressão arterial e se possível, capnografia;
> Decúbito a 30º graus;
> Pré-oxigenação;
> Sedação rápida e eventual curarização;
> Intubação orotraqueal com cânula de calibre preferencialmente maior que 8mm e com cuff de alto volume e baixa pressão;
> Correção da hipotensão;
> Sedação e/ou bloqueio neuromuscular prolongado ( até 24 horas ).


Após a intubação existe uma vontade irresistível de ventilar manualmente com algum entusiasmo o paciente; manobra esta que deve ser feita lentamente e com baixos volumes correntes. Este período peri-intubação é o período mais delicado e perigoso da manipulação do paciente que necessita ventilação pulmonar mecânica.

A ventilação pode ser realizada com um aparelho ciclado a volume ou a tempo com pressão limitada, utilizando uma freqüência respiratória de ciclagem baixa (8 -12 ciclos/min), com volume corrente de 5 a 8 ml/Kg aceitando-se a possibilidade de hipercapnia e acidose respiratória. O quanto é importante manter a PaCO2 mais baixa? No ponto de vista de Bellomo R. et al, 1994, o valor da PaCO2 tem pouca importância já que existem evidências de que a hipercapnia não é perigosa. A utilização de bicarbonato de sódio não deve ser empregada mesmo que a acidemia seja grave (pH < 7,2). A relação inspiração: expiração deve estar em torno de 1:2 (ou um tempo expiratório maior, até 1:4). Um outro conceito importante que devemos ter em mente é o da hiperinsuflação dinâmica que resulta de uma expiração incompleta, de tal maneira que o volume de equilíbrio elástico não é obtido antes que se inicie a próxima inspiração. Isto vai resultar em uma pressão alveolar positiva no final da fase expiratória ocasionando o chamado auto-PEEP, que tem uma relação direta com o volume corrente e inversa com o tempo permitido para a expiração. Na asma aguda grave a hiperinsuflação dinâmica ocasiona uma distribuição regional heterogênea dos gases, com as unidades normais expostas a uma pressão de distensão e volumes excessivos. Isto pode ocasionar barotrauma, sendo este como uma das complicações mais importantes na ventilação mecânica do paciente asmático, além de alterações hemodinâmicas (diminuição do retorno venoso e compressão cardíaca mecânica direta, extrínseca). Tuxen D.V. et al, 1987 demonstraram que o volume expiratório final (VEF) e o volume inspiratório final (VIF) podem aumentar a capacidade residual funcional (CRF) e que podemos fazer uma redução favorável no VIF através da diminuição do volume corrente e freqüência respiratória por meio de um aumento do tempo expiratório.

Parâmetros ventilatórios na regulagem do 
ventilador mecânico na crise de asma aguda
PARÂMETROS VALOR PRECONIZADO
Modo ventilatório De preferência modos limitados a pressão
Volume corrente 5 -8ml/Kg
Freqüência respiratória 8 - 12irpm
Fluxo inspiratório 5 - 6 X VC ou 10% do VC
Pressão de pico < 50cmH2O
Platô de pressão < 35cmH2O
PEEP externo De preferência entre 3 - 5 cmH2O
Auto-PEEP < 15 cmH2O
PaCo2 > 40 e < 90mmHg
PH > 7.2
PaO2 > 80 e < 120mmHg


Conclusão

Os objetivos do tratamento são: Ajudar na remoção de secreções. fortalecer musculatura expiratória, obter relaxamento do pescoço, cintura escapular e músculos torácicos superiores, ensinar ao paciente o controle respiratório. manter a mobilidade do pescoço, cintura escapular, coluna torácica e tórax, educar a consciência postural, manter ou melhorar a tolerância aos exercícios. encorajar um estilo de vida ativo e completo.

Embora o diagnóstico da asma possa vir a levar uma pessoa, inevitavelmente, ao uso de medicamentos para controle de sua condição, há várias maneiras de sua família ajudar a reduzir os sintomas: evitando alérgenos, temperatura do quarto, fumaça de cigarro.

A abordagem multidisciplinar vigorosa e intensificada em centros de tratamento intensivo em paciente portadores de asma agudizada é um aspecto que deve ser bem analisado, avaliando com cautela os risco-benefício, visando um rápido estabelecimento clínico do paciente, além de fortalecer as orientações à exacerbações. 

A fisioterapia tem dia-após-dia, adquirindo espaço e desenvolvendo meios de abordagens em diversos segmentos na área de saúde e, portanto, é certo que com o desenvolver dos estudos intensificados realizados no Brasil e no mundo, alguns dos conceitos aqui aplicados, apesar de atualizados, já possam ter sofrido alguma alteração, devendo o leitor analisar criteriosamente os dados e acima de tudo desenvolver a análise crítica que muito falta aos tantos profissionais da área de saúde.



Bibliografia

* GONÇALVES, J.L. Terapia Intensiva respiratória - Ventilação Artificial. Lovise: Curitiba, 1991.

* PAULA, A. Pneumologia. Sanvier: São Paulo, 1984.

* TARANTINO, A. B. Doenças pulmonares. 2º ed. Guanabara Koogan: Rio de Janeiro, 1982.

* THOMSON, A. et. al. Fisioterapia de tidy. 12º ed. Santos, São Paulo, 1994.

* II CONSENSO BRASILEIRO DE VENTILAÇÃO MECÂNICA. J Pneumol 26 ( supl 2 ) - maio de 2000.

* WEST, J.B. Fisiopatologia Pulmonar Moderna. 4º ed. Manole: São Paulo: 1996.

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Obs.:
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- Publicado em 02/08/05

 


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