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Trabalho realizado por: ► Drª. Ana Carolina Souto Maior ¹ anacarolina.soutomaior@gmail.com
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Drª. Alethéia Eskel Auriema ² |
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Pesquisa personalizada
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O USO ASSOCIADO DE DECANOATO DE NANDROLONA E TREINAMENTO MUSCULAR RESPIRATÓRIO NO TRATAMENTO DE PACIENTE COM DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA – RELATO DE CASO |
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INTRODUÇÃO A doença
pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) figura entre as principais causas
de morte no Brasil1 e sua prevalência, já alta, continua a crescer
anualmente.2 Assim como outras doenças crônicas, a DPOC constitui
grande impacto médico e social, sendo considerada um grave problema
de saúde pública devido a sua prevalência crescente, alta
morbimortalidade e elevado custo socioeconômico.2,3 A DPOC é
definida como um grupo de entidades nosológicas respiratórias que
acarretam obstrução crônica ao fluxo aéreo de caráter fixo ou
parcialmente reversível, tendo como alterações fisiopatológicas de
base, graus variáveis de bronquite crônica e enfisema pulmonar.1 É prevenível e
tratável, sendo principalmente causada pela fumaça do cigarro.
Embora afete primariamente os pulmões, atualmente é considerada uma
doença pulmonar com repercussões sistêmicas que resultam em
comorbidades e perda da qualidade de vida.3,4 Os sintomas
mais freqüentes são dispnéia, tosse, expectoração e fadiga. Estes
sintomas, além de constituírem um desfecho clínico, contribuem
ainda, em outros desfechos, como por exemplo, a intolerância ao
exercício e a fraqueza muscular respiratória.3,5 Entender os
fatores que contribuem para este quadro é essencial para o
desenvolvimento de intervenções terapêuticas que objetivem aliviar
estes sintomas e, conseqüentemente, melhorar a qualidade de vida
desta população.6 Sabe-se que dentre esses diversos fatores, a
fraqueza muscular respiratória desempenha um importante papel na
fisiopatologia da insuficiência respiratória7,8 em pacientes com
DPOC e que o treinamento muscular respiratório tem sido preconizado
como forma de aumentar a resistência e a força dessa musculatura,
assim como melhorar a tolerância ao exercício e diminuir a
dispnéia.6,7,9,10 Atualmente, na
tentativa de se buscar novas formas de tratamento do paciente com
DPOC, diversos autores11-17 têm estudado os efeitos do uso de
esteróides anabolizantes como terapêutica complementar neste tipo de
paciente. Os esteróides
anabolizantes são uma classe de medicamentos que contém uma forma
sintética do hormônio testosterona ou algum componente que deriva
desse hormônio14,18. Essa substância auxilia no aumento da massa e
da força muscular por meio de um efeito anti-catabólico a nível
celular. Somada a hipertrofia muscular, os esteróides anabolizantes
resultam em redução da gordura corporal e estimulação da
eritropoetina. Apesar de ser muito estudado, o mecanismo pelo qual
os esteróides anabolizantes resultam em aumento de massa muscular
ainda permanece desconhecido.13,14,18 Dentre os
diversos tipos de esteróides anabolizantes, o decanoato de
nandrolona, cujo nome comercial é Deca-Durabolin®, é um dos mais
usados devido à sua hidrolisação lenta, mantendo-se constante no
tecido durante semanas após a aplicação.13,18,19 Além disso, é o
anabolizante com menor incidência de efeitos colaterais e toxicidade
hepática,18,19 o que o torna a opção mais segura quando utilizada em
indivíduos que já apresentam uma função hepática sobrecarregada
devido ao grande número de medicamentos administrados. Bisschop e
cols8 declaram em seu estudo que os esteróides anabolizantes
acarretam maiores efeitos benéficos na musculatura diafragmática
quando comparada com outros músculos esqueléticos. Acredita-se que
isso ocorra devido à alta densidade de receptores andrógenos-citosol
e a contração cíclica e contínua que caracteriza essa musculatura.
Uma vez que o
uso de anabolizantes esteróides leva a mudanças histoquímicas e
bioquímicas do diafragma8, têm-se questionado os benefícios que o
uso anabolizante esteróide associado ao treinamento muscular
respiratório poderia trazer ao paciente com DPOC. Apesar da
constatação de aumento de força, massa e pressão da musculatura
respiratória quando administrado esteróide anabolizante e do já
consagrado efeito benéfico do treinamento muscular respiratório
neste tipo de paciente, pouco se sabe a respeito da associação
dessas duas técnicas. Ferreira e cols17, em seu pequeno estudo,
observaram que o uso combinado dessas técnicas aumenta a pressão
inspiratória máxima e resulta em mudanças positivas na função da
musculatura respiratória, porém devido à pequena amostra não foi
possível alcançar significância estatística desses resultados. Apesar dos
poucos estudos e constatação científica, o uso clínico de esteróides
anabolizantes e treinamento muscular respiratório apresenta
resultados positivos melhorando, mesmo que de forma qualitativa, a
força da muscular respiratória, reduzindo a dispnéia, melhorando a
tolerância ao exercício e a qualidade de vida de pacientes com DPOC.
Por esse motivo, consideramos primordial o relato de um caso de
sucesso que foi obtido a partir do uso combinado de decanoato de
nandrolona e treinamento muscular respiratório.
OBJETIVO Apresentar a
evolução de um paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica após
a introdução do treinamento muscular respiratório associado à
administração de decanoato de nandrolona.
RELATO DE CASO Paciente
W.F.R., 67 anos, sexo feminino, com antecedentes de doença pulmonar
obstrutiva crônica, hipertensão arterial sistêmica, depressão,
osteoporose e hipótese diagnóstica de asma e pneumonia, foi admitida
em 07/06/2008 no Pronto Socorro da ISCMSP na unidade do HSLG,
trazida por familiares devido a quadro de dispnéia intensa há um dia
e sintomas gripais há uma semana, já fazendo uso de amoxicilina. Ao
exame, apresentava taquidispnéia, taquicardia, cianose de
extremidades, broncoespasmo, sonolência e dificuldade de deambular e
contactar, sendo então transferida para a Unidade de Terapia
Intensiva do mesmo hospital. Paciente recebe tratamento para
reversão do broncoespasmo sem melhora, sendo realizado procedimento
de sedação e intubação orotraqueal (IOT), colocando paciente em
ventilador Bird Mark 7. Em 09/06/2008,
paciente começa a apresentar enfisema subcutâneo em parede anterior
de tórax e membros superiores, mantendo ausculta pulmonar de
murmúrio vesicular (MV) presente com sibilos difusos e apresentando
gasometria arterial com os seguintes valores: pH: 7,59; PCO2: 20,3;
PO2: 323; BE: -1,6; HCO3: 19,1; SatO2: 99,8%. Em 10/06/2008,
é realizado procedimento de troca de cânula orotraqueal (de número 7
para 8) e ventilador mecânico (de Bird Mark 7 para Bird 8400) com
parâmetros iniciais na modalidade ventilação mandatória intermitente
sincronizada (SIMV), com fração inspirada de oxigênio (FiO2) de 30%,
volume corrente (VC) de 350, fluxo de 60, freqüência respiratória
(f) de 12, freqüência respiratória total (FRT) de 17, pressão
expiratória ao final da expiração (PEEP) de 5, sensibilidade de 2 e
pressão de suporte (PS) de 20. Inicia-se o
tratamento fisioterapêutico no 5º dia de internação (DI), com
paciente em IOT, mesmos parâmetros ventilatórios, sem sedação,
reativa ao manuseio, hipocorada, hidratada, afebril, acianótica e
anictérica, com ausculta pulmonar de MV presente com estertores
crepitantes difusos em ambos hemitórax e enfisema subcutâneo em
região torácica, pescoço e face, sem pneumotórax. Foram realizadas
manobras de higiene brônquica, terapia expiratória manual passiva (TEMP)
e aspiração de cânula orotraqueal (COT) e vias aéreas superiores (VAS)
com saída de grande quantidade de secreção amarela semi-espessa. Paciente
manteve mesmo quadro clínico até o 8º DI onde apresentou edema agudo
de pulmão, crise convulsiva e foi diagnosticada infecção no trato
urinário. Com edema agudo de pulmão e crise convulsiva devidamente
revertidas, paciente manteve-se com mesmo quadro clínico até o 15º
DI, onde foi realizado procedimento de traqueostomia. Em 25/06/2008
(19º DI), paciente é desmamada do ventilador mecânico, mantendo-se
em nebulização contínua de oxigênio a 5 L/min, com saturação
periférica de oxigênio (SpO2) de 98%. No 25º DI,
paciente é transferida para enfermaria da Clínica Médica Feminina da
ICSMSP, na unidade HSLG onde apresentava-se com cânula plástica de
traqueostomia (TQT) em regular estado geral, acordada, consciente,
contactuante, hipocorada, hidratada, afebril, acianótica, anictérica,
eupneica recebendo nebulização contínua de oxigênio a 7 L/min e com
ausculta pulmonar de MV presente com estertores crepitantes esparsos
bibasais, mais evidentes em base esquerda. Gasometria Arterial com:
pH: 7,47; PCO2: 28,6; PO2: 177,4; BE: -2,2; HCO3: 20,7; SatO2:
99,3%. No dia
seguinte, paciente retoma atendimentos fisioterapêuticos
apresentando-se com TQT plástica, acordada, consciente, contactuante,
desanimada, hipocorada, hidratada, afebril, acianótica, anictérica,
taquipneica em ar ambiente com ausculta pulmonar de MV presente com
roncos esparsos em ambos hemitórax. Neste dia foram realizadas
manobras de higiene brônquica, técnicas de aceleração de fluxo
expiratório, mobilização passiva de membros superiores e inferiores
e aspiração de TQT e VAS com grande quantidade de secreção amarela
espessa. Em 04/07/2008
(28º DI) é discutido com equipe médica a prescrição de decanoato de
nandrolona (Deca-Durabolin®), sendo a primeira dose (uma ampola de
50mg) aplicada em 08/07/2008 e repetida semanalmente até o dia
29/07/2008. Dois dias
depois, inicia-se treinamento muscular respiratório com a paciente
que ainda permanecia com TQT plástica recebendo nebulização contínua
de oxigênio a 8 L/min. Neste dia paciente realizou manobra de
Vasalva e manobra de Müller, além de treinamento com oclusão
temporária de TQT. No 40º DI
paciente consegue se manter com TQT plástica ocluída
permanentemente, recebendo 2 L/min de oxigênio por catéter tipo
óculos. 42º DI:
paciente inicia treinamento ativo de força muscular em membros
superiores e inferiores e aumenta freqüência de repetições de
exercícios para treinamento muscular respiratório. 45º DI: equipe
da cirurgia e fisioterapia realizam troca de cânula plástica de
traqueostomia por cânula metálica (número 5), sem intercorrências. Em 26/07/2008
paciente começa a deambular com auxílio da fisioterapeuta, mantendo
SpO2 entre 90 e 95% em ar ambiente. No 55º DI,
equipe de fisioterapia realiza troca de cânula metálica de TQT
número 5 para número 3, sem intercorrências. No 61º DI, é
realizada nova troca de cânula metálica de TQT, agora retirando
número 3 e colocando número 2. Paciente já deambula sem auxílio e em
ar ambiente, sem apresentar queda de SpO2. Em 07/08/2008,
paciente recebe alta hospitalar recebendo encaminhamento para
tratamento com pneumologia e realização de decanulação com equipe
cirúrgica. Um dia após a
alta hospitalar, paciente retorna ao Pronto Socorro da ICSMSP na
unidade HSLG com quadro de dor na perna, com hipótese diagnóstica de
trombose venosa profunda. Evolui com um episódio de hemorragia
digestiva alta, mantendo-se estável até a alta após este episódio.
Em 20/08/2008, equipe cirúrgica realiza decanulação da TQT. Cinco
dias depois paciente recebe alta hospitalar.
CONCLUSÃO O treinamento
muscular respiratório associado ao uso de decanoato de nandrolona
aumentou a força e a resistência muscular respiratória, melhorou a
tolerância ao exercício, diminuiu a dispnéia e melhorou a qualidade
de vida dessa paciente com DPOC. Apesar dos bons resultados
alcançados empiricamente se faz necessária a realização de mais
estudos com o intuito de mensurar e quantificar os benefícios desse
tipo de tratamento, além de estabelecer um protocolo mais específico
para este tipo de paciente.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS 1. JEZLER e
cols. III Consenso brasileiro de ventilação mecânica na doença
pulmonar obstrutiva crônica descompensada. J Bras Pneumol. 2007; 33
(Supl 2): S111-S118. ¹ Aprimoranda em Fisioterapia em Terapia Intensiva pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), Especialista em Fisioterapia Respiratória pela Irmandade de Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ICSMSP) – Unidade Hospital São Luiz Gonzaga (HSLG) e Pós-Graduada em Fisioterapia Cardiorrespiratória pela Universidade Gama Filho (UGF).
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