Referência  em  FISIOTERAPIA  na  Internet

 www.fisioweb.com.br 


Trabalho realizado por:
Ferreira, J.B*.
Machado, A.C.**
Soares, J.C.**
Contato: Janaína Barcelos Ferreira
E-mail: jbfmo@yahoo.com.br

*Acadêmica do Curso de Fisioterapia da Universidade Federal de Santa Maria
** Professora do Curso de Fisioterapia da Universidade Federal de Santa Maria
*** Fisioterapeuta da Unidade de Terapia Intensiva Hospital Universitário de Santa Maria


O Uso de Recrutamento Alveolar na Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA) - Revisão Bibliográfica
Recruitment Maneuvers in Acute Respiratory Distress Syndrome
A bibliographic revision

 

Resumo

Evidências mostram que o Recrutamento Alveolar é estudado quanto aos seus efeitos e sua melhor forma de aplicação, em vários tipos de lesão pulmonar e principalmente na Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA). Este trabalho procurou trazer os avanços que a técnica de Recrutamento Alveolar sofreu nos últimos dez anos, analisando artigos científicos, nacionais e internacionais, publicados entre 1995 e 2005. Foi realizada uma revisão bibliográfica, procurando abranger estudos de significância quanto aos possíveis efeitos benéficos e deletérios do Recrutamento Alveolar, bem como sua melhor forma de aplicação, tendo como base evidências clínicas e estudos específicos na área. Realizou-se também, uma breve revisão bibliográfica sobre SARA e Pressão Positiva Expiratória Final (PEEP) , a fim de esclarecer quanto a termos que seriam de necessário conhecimento para a compreensão do assunto alvo da pesquisa. A partir daí, concluímos que muitas questões quanto à aplicação do Recrutamento Alveolar na SARA ainda são debatidas. Com a análise dos dados colhidos, observou-se o uso de diversos protocolos de Recrutamento Alveolar, como Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP), PEEP, posicionamento prona, dentre outras. Contudo, estas formas de aplicação da manobra sofrem modificações de acordo com a realidade do serviço onde é desenvolvida, não existindo um consenso quanto a melhor forma de utilização de cada protocolo, ou, ainda, qual, ou quais, destas formas de recrutar alvéolos apresenta melhor desempenho em pacientes com SARA. Contudo, há uma preferência à utilização de altos valores de PEEP para a reversão do quadro respiratório, gravemente acometido nestes pacientes.

Palavras-chave: Pressão Positiva Expiratória Final (PEEP), Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA), Recrutamento Alveolar.


Abstract

Evidences shows Lung Recruitment have been studied concerning its effects and best way of its application, in different types of lung injury and especially in Acute Respiratory Distress Syndrome (ARDS). The present research looked for advances that lung recruitment maneuvers have been suffered on the last ten years, analyzing scientific articles, published between 1995 to 2005, in the national and international setting. That was done a bibliographic revision, including very important studies about the better and worse effects and risks of the maneuvers, as well, its best way to be aplicated, having with embasement the clinic practices and specifics descriptions on this area. That was done too, a bibliographic revision about ARDS and Positive End-expiratory Pressure (PEEP), to talk about some relevant terms concerning the principal topic of this research, the lung recruitment. This material showed that a lot of questions of recruitment maneuvers in ARDS have no answers yet. We could observe there are too many recruitment protocols, for example, Continue Positive Air Pressure (CPAP), PEEP, prone position; and they have different ways to be done, according with the particular reality. Conclusion: There is not a preferential way, or a “best lung recruitment protocol” to be used. We can say there is some ways to do it, that have been more studied than others, and this protocols showed better effects and durability of its results. By the way, the PEEP protocol have been studied and aplicated with better results than the another types of recruitment maneuvers, but the study’s number is not sufficient to affirm that this is the best protocol.

Key words: Positive End-expiratory Pressure (PEEP), Acute Respiratory Distress Syndrome (ARDS), Lung Recruitment.


Introdução

Rodrigues e cols (2002) conceituam a Síndrome da Angústia Respiratória Aguda como uma forma grave de lesão microvascular pulmonar que ocorre em pacientes críticos após vários insultos locais ou sistêmicos.

Dentro da necessidade do uso de suporte ventilatório mecânico, mostra-se comum à realidade das unidades de terapia intensiva o aprimoramento das técnicas de suporte ventilatório, bem como de proteção do sistema respiratório do paciente em questão, e ainda, a necessidade do emprego de técnicas de recrutamento alveolar. Neste caso, a aplicação de tais técnicas buscariam a otimização da função respiratória, de forma que se minimizem a hipoxemia, o tempo de ventilação mecânica, o tempo de terapia intensiva e os efeitos deletérios de sua patologia de base e da própria Síndrome da Angústia Respiratória Aguda.

Pode-se observar, a partir de diversos trabalhos publicados, que o recrutamento alveolar associado à ventilação mecânica é a técnica escolhida na grande maioria das unidades de terapia intensiva como protocolo de tratamento na presença de injúria pulmonar aguda e da SARA. Trata-se de uma técnica ainda em fase de discussão e pesquisas quanto aos seus possíveis efeitos deletérios, suas particularidades, contra-indicações e principalmente quanto a seus benefícios e sua melhor forma de aplicação.


Recrutamento alveolar na Síndrome da Angústia Respiratória Aguda

Azeredo (2000) descreve a técnica de recrutamento alveolar como a capacidade de reinsuflação de um ou mais alvéolos colapsados, baseado no raciocínio anátomo-fisiológico da ventilação colateral alveolar, uma vez que a distensão dos alvéolos normalmente ventilados promoveira a reabertura das unidades vizinhas, durante breves e repetidas pausas inspiratórias.

O mesmo autor afirma que, desta forma, o que determinaria a existência da ventilação colateral alveolar é a existência de comunicações acessórias entre alguns bronquíolos e alvéolos adjacentes, responsáveis também pela passagem de ar interalveolar.


Técnicas de Recrutamento Alveolar

Altos níveis de Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP)

Amato et al (1998) estudaram um protocolo de recrutamento envolvendo altos valores de CPAP. Utilizando 40 cmH2O de pressão positiva continua (CPAP) por 40 segundos associado a um valor de PEEP setado em 2 cmH2O acima do ponto de inflexão da curva P x V, em pacientes com SARA, observou um aumento na relação PaO2/FiO2, complacência do sistema respiratório e aumento da sobrevida dos pacientes submetidos à manobra.

Grasso et al (2002) aplicaram a manobra de recrutamento alveolar utilizando altos valores de CPAP em pacientes com SARA, os quais faziam uso da estratégia de ventilação protetora. Os autores utilizaram 40 cmH2O de CPAP por 40 segundos. Para a análise do estudo, os pacientes foram classificados como responsivos e não-responsivos de acordo com o aumento ou não da relação PaO2/FiO2, em 50%, após a manobra de recrutamento alveolar. Depois de 2 minutos, os pesquisadores observaram um aumento de 20 a 30% na relação PaO2/FiO2 nos não responsivos e um aumento de 175% em relação aos responsivos. O grupo responsivo apresentava baixas elasticidades torácica e pulmonar e foi ventilado por um pequeno período de tempo, desenvolvendo menor dano hemodinâmico comparado ao grupo não responsivo.

Posição Prona

Bongard e Sue (2005) acreditam que o posicionamento em prona é um atrativo especial para recrutar alvéolos porque aplica e sustenta as forças de recrutamento em regiões dorsais que são comprimidas na posição supina por uma alta pressão local e pelo peso cardíaco e das vísceras mediastinais. A oxigenação arterial aumenta de 50 a 75% em pacientes com SARA na posição prona.

Nakos et al (2000) estudaram os efeitos da posição prona em pacientes que faziam uso de ventilação mecânica. Através do estudo, os autores observaram que a posição prona pode ser usada como manobra de recrutamento alveolar em pacientes com hipoxemia severa associada a edema pulmonar, e, ainda, que a presença de edema pulmonar no estágio inicial de SARA apresenta maiores benefícios do posicionamento em prona sobre as trocas gasosas em relação àqueles pacientes com estágio de SARA mais avançado.

Gattinoni et al (2001) demonstraram em um estudo com pacientes com lesão pulmonar aguda (LPA), na maioria com SARA severa (definidos por uma relação PaO2/FiO2< 88 e um VAC >12ml/Kg), que quando estes pacientes eram colocados em posição prona apresentavam um aumento significante da oxigenação, sugerindo que a posição pode ser usada como opção inicial de resgate mesmo nos casos mais severos da doença.

Suspiros Intermitentes

Pelosi et al (1999) relataram o uso de suspiro como estratégia de recrutamento em 10 pacientes com SARA durante uma estratégia protetora de ventilação pulmonar.Três suspiros consecutivos foram executados deliberadamente em cada minuto até uma pressão platô de 45 cmH2O. Os efeitos dos suspiros foram comparados com a ventilação de proteção pulmonar sem suspiros. Com suspiros aplicados dessa maneira, foi relatado aumento da PaO2, diminuição da saturação venosa mista e aumento do volume pulmonar expiratório final. Esses achados são coerentes com o recrutamento pulmonar secundário ao uso de suspiros respiratórios.

Barbas et al (2001) observaram pacientes com SARA ventilados com PEEP setado em 2 cmH2O acima do ponto de inflexão da curva P x V (Pflex) e 6 ml/Kg de volume de ar corrente (VAC), e randomizaram-nos a fim de que cada um recebesse três ciclos de pressão controlada de 40 cmH2O por 6 segundos (suspiros), a cada três horas, e/ou quando necessário; ou três ciclos de pressão controlada (PCV) de 40, 50 e 60 cmH2O por 6 segundos a cada três horas. No grupo que foi submetido ao segundo protocolo, os autores observaram um aumento importante da relação PaO2/FiO2 entre uma e seis horas depois sem comprometimento hemodinâmico comparado com o grupo que recebeu apenas pressão de 40 cmH2O.

Patroniti et al (2002) mostraram que a adição de um suspiro por minuto com nível alto de PEEP (próximo a 40 cmH2O), durante a aplicação de pressão positiva bifásica nas vias aéreas (BIPAP) com pressão suporte, aumenta as trocas gasosas e o volume pulmonar e diminui a freqüência respiratória em pacientes em estágio inicial de SARA.


Altos níveis de PEEP

Villagrá et al (2002) desenvolveram um estudo utilizando manobras de recrutamento alveolar com altos valores de PEEP. Na ocasião, foi aplicado um valor de PEEP setado em 2 cmH2O acima do maior ponto de inflexão da curva P x V, associado com ventilação de estratégia protetora, pressão controlada. Como resultado, os autores obtiveram uma pequena melhora da oxigenação, hiperdistensão alveolar, e, ainda, certo grau de acidose respiratória.

Mais tarde, em 2003, Sottiaux debateu sobre o estudo desenvolvido por Villagrá et al, questionando se o protocolo aplicado tratava-se realmente de uma tentativa de recrutamento alveolar, levando em conta o valor de PEEP escolhido (acima do maior ponto de inflexão da curva P x V), o qual poderia ser o responsável pelos resultados obtidos. O autor acrescentou ainda, a necessidade de realização de um maior numero de estudos mostrando as melhores e mais seguras formas de aplicação da técnica, bem como de pesquisas que mostrem sua real ação no tratamento da SARA.

Inversão da relação Inspiração-Expiração (I:E)

De acordo com Yanos et al (1998), os efeitos da ventilação com relação invertida na SARA não são muito claros. Estes autores desenvolveram um estudo para determinar se a ventilação com relação inversa melhora as trocas gasosas pulmonares, e descobrir qual o mecanismo responsável pela melhora, se esta existir. Com o estudo, pode-se concluir que, aumentando a pressão das vias aéreas pelo prolongamento do tempo inspiratório, há o aumento das trocas gasosas em pacientes com SARA, mas quando há a diminuição da pressão das vias aéreas, desenvolvendo assim um PEEP intrínseco, os efeitos benéficos sobre as trocas gasosas são menores.

Lewis e cols (2005) acreditam na utilização a relação I:E invertida para o tratamento de hipoxemia refratária e SARA. Os autores afirmam que, ao contrário do que ocorre com a ventilação convencional, neste caso o tempo inspiratório é maior que o tempo expiratório, isto é obtido diminuindo a velocidade de fluxo inspiratório, mantendo-se a inspiração por um tempo pré-determinado antes da exalação ou, no caso de usar um ventilador ciclado a tempo, aumentando-se diretamente o tempo inspiratório. Os autores afirmam ainda, que tempo expiratório reduzido pode causar hiperinsuflação dinâmica, elevando o volume expiratório final e melhorando as trocas gasosas de maneira similar à PEEP intrínseca. Por outro lado, a hiperinsuflação dinâmica e o tempo inspiratório mais prolongado podem causar redução do débito cardíaco e hipotensão.

Desta forma, Lewis e cols (2005) concluem que, pela falta de estudos clínicos controlados que demonstrem resultados melhores com o uso da relação invertida, este método deve ser reservado para os raros pacientes com hipoxemia refratária que não respondem a PEEP e à oxigenioterapia.


Metodologia

Foi realizada uma coleta de dados secundários, sendo os mesmos definidos como aqueles que já foram coletados com fins de estudo (periódicos, livros, materiais extras sobre Angústia Respiratória Aguda (SARA), Pressão Expiratória Positiva Final (PEEP) e Recrutamento Alveolar).

O material utilizado foi selecionado a partir de um tempo máximo de publicação de dez anos, sendo assim, as fontes pesquisadas caracterizavam-se por trabalhos publicados no período entre 1995 e 2005 em revistas de reconhecimento internacional: New England Journal of Medicine (NEJM), Critical Care Medicine e American Journa,l of Respiratory and Critical Care Medicine (AJRCCM), Intesive Care Medicine, Critical Care, Chest, Anestheology e JAMA escolhidas pela grande confiabilidade quanto à publicação de artigos e trabalhos científicos, de forma que dados desatualizados ou já extintos não fossem utilizados para o desenvolvimento esta pesquisa

O material foi acessado a partir dos bancos de dados PubMed, Google e Periódicos Capes, ou a partir de seus websites diretos quando possível. Sendo assim, as fontes de pesquisa on line encontram-se disponíveis nos respectivos endereços eletrônicos: <www.pubmed.org>, <www.google.com>, <www.periodicos,capes.gov.br>, <www.chestjournal.org>, <www.anesthesiology.org>, <www.rcjournal.com>, <www.jama.ama-assn.org> e <www.journals.cambridge.org>.

Foram utilizados ainda, livros texto atualizados e editados dentro do período de tempo determinado para a coleta de dados.

Um número mínimo de trinta artigos foi estipulado como meta de coleta, para lograr a este trabalho significância e poder de discussão àqueles que o acessar, tendo sido a meta alcançada, com um total de quarenta e seis artigos analisados, além das fontes de literatura como livros texto da área.

O material foi lido, traduzido, quando necessário, e analisado pela pesquisadora, de forma a ser posteriormente redigido em forma de texto, com objetivo de associar os resultados colhidos a partir das experiências práticas publicadas, levando em conta as diferentes realidades as quais foram realizados os experimentos estudados, buscando desta forma descrever os avanços da aplicação da técnica de Recrutamento Alveolar na Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA) e sua viabilidade em diferentes realidades, inclusive na que nos pertence.


Resultados e Discussão

Neste estudo foram analisado 46 artigos, sobre a Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA), Pressão Positiva Expiratória Final (PEEP) e Recrutamento alveolar.

Dentro deste número, estavam compreendidos 31 artigos que tratavam exclusivamente sobre a manobra de recrutamento alveolar em pacientes com SARA, discutindo quanto sua melhor forma de aplicação, seus efeitos, benefícios e riscos, como mostra o Quadro 1. O número restante de artigos (15) , somou-se às fontes de literatura a fim de trazer atualidades sobre SARA e PEEP, temas de grande relevância para o posterior entendimento do assunto alvo deste trabalho, o recrutamento alveolar.

Quadro 1. Resumo dos trabalhos pesquisados sobre o uso de Recrutamento Alveolar na Síndrome da Angústia Respiratória Aguda, realizados no período de 1995 e 2005.

 

Autor / Ano Achados sobre Recrutamento Alveolar na
Síndrome da Angústia Respiratória Aguda
Rothen et al (1993 apud HESS E BIGATELLO, 2002) Foram comparadas duas manobras de recrutamento alveolar, uma, que utilizava valores de PEEP de 10, 20, 30 e 40 cmH2O e outra, que utilizava três insuflações repetidas com PEEP de até 30 cmH2O, seguida por uma insuflação com PEEP de 40 cmH2O, ambas por 15 segundos. Pode-se observar que a reexpansão completa era obtida com um valor de 40 cmH2O de PEEP.
Rothen et al (1994 apud HESS E BIGATELLO, 2002) Os autores avaliaram a durabilidade dos efeitos da manobra de recrutamento, utilizando o segundo protocolo de recrutamento alveolar realizado na pesquisa anterior. A partir daí, notaram que a durabilidade dos efeitos do recrutamento foi de um tempo mínimo de 40 minutos após o seu término
Amato et al (1998) Utilizando 40 cmH2O de CPAP, por 40 segundos, associado a valores de PEEP setados 2 cmH2O acima do menor ponto de inflexão da curva P x V, pode-se observar a melhora da relação PaO2/FiO2, além do aumento da complacência pulmonar e da sobrevida dos pacientes.
Yanos et al (1998) Foi aplicada a inversão da relação inspiração-expiração para determinar os efeitos obtidos a partir dela. Obteve-se um aumento da pressão das vias aéreas, aumento das trocas gasosas e desenvolvimento de PEEP intrínseca.
Pelosi et al (1999) Analisou-se a ação dos suspiros intermitentes associados à estratégia de ventilação protetora. Foram utilizados três suspiros consecutivos a cada minuto com um valor de pressão de até 45 cmH2O. Com isso, houve um aumento da PaO2, diminuição da saturação venosa mista e aumento do volume pulmonar expiratório final.
Lapinsk (1999) apud HESS E BIGATELLO, 2002 Estes autores aplicaram uma manobra de recrutamento alveolar utilizando um valor entre 30 e 45 cmH2O de CPAP, por 20 segundos, e observaram uma significante melhora da saturação e pressão arteriais de oxigênio.
Rimensberger et al (2000) Observou-se que uma manobra de recrutamento alveolar utilizando 30 cmH2O de PEEP, por um tempo de 30 segundos, reduzia a taxa dos fatores desencadeantes de injúria pulmonar, melhorava a mecânica pulmonar e a oxigenação arterial. E que outra, utilizando baixo valor de volumes correntes e manutenção do volume pulmonar com uso de pressão inspiratória acima do menor ponto de inflexão da curva pressão – volume (P x V), reduzia o limiar da curva P x V, ou seja, este protocolo de recrutamento leva a uma redução da injuria pulmonar.
Kloot e cols (2000) Foram aplicadas manobras de recrutamento alveolar com valores de CPAP, com três insuflações sustentadas consecutivas, em três formas distintas de insuficiência respiratória aguda. A primeira, com valor de 40 cmH2O de CPAP por trinta segundos, seguida por 30 segundos de ventilação com os parâmetros já utilizados pelo pacientes, a segunda manobra utilizou 60 cmH2O de CPAP por 30 segundos, seguida de 30 segundos de ventilação nas mesmas condições, e, finalmente, a terceira insuflação com 60 cmH2O, seguida pelo retorno aos parâmetros ventilatórios prévios. Os autores observaram assim, que não há uniformidade de resposta à manobra de recrutamento pelas diferentes patologias respiratórias, porém há uma maior resposta ao recrutamento alveolar sobre a SARA em estágio iniciais.
Cakar (2000) Os autores utilizaram uma manobra de recrutamento alveolar que consistia de duas insuflações sustentadas de 60 cmH2O, por um tempo de 30 segundos, associada ao posicionamento em prona em dois grupos distintos, modificando em cada grupo apenas a forma de aplicação do valor da PEEP. No primeiro grupo a manobra foi acompanhada de valores de 8 e 15 cm H2O de PEEP para cada insuflação, enquanto no segundo grupo, esses valores tiveram suas ordens invertidas, ou seja, 15 e 8 cmH2O pra a primeira e segunda insuflações respectivamente. Os resultados sugeriram que o recrutamento alveolar melhora a oxigenação de forma mais eficiente quando o valor da PEEP é retirado de forma gradual, isto é, como realizado no segundo grupo.
Medoff (2000) Descreveram uma manobra de recrutamento alveolar utilizando um valor de PEEP em torno de 40 cmH2O, associado a um valor de 20 cmH2O de pressão controlada durante 2 minutos, com auxilio de monitorização por tomografia computadorizada de tórax, seguido da aplicação de 25 cmH2O de PEEP, para sustentar o efeito, notando significante melhora das trocas gasosas e o recrutamento quase completo do pulmão.
Nakos et al (2000 ) Estes autores estudaram os efeitos da posição prona como forma de recrutamento alveolar. Concluíram que a posição com este fim pode ser utilizada para resolução de hipoxemia, edema pulmonar e SARA, neste último caso, a manobra apresenta maior beneficio para aqueles pacientes no estágio inicial da doença.
David (2000) O autor relata que estudos com tomografia computadorizada de tórax demonstram que, em pacientes com SARA, as regiões pulmonares dependentes apresentam maior perda de volume. O autor acredita ainda, que o uso da posição prona como forma de recrutamento alveolar aumenta a capacidade residual funcional e atenua a formação de lesões ao parênquima.
Foti et al (2000 apud HESS E BIGATELLO, 2002) Neste caso, foi utilizado aumento sucessivo de 5 cmH2O no valor da PEEP a cada dois ciclos respiratórios, obtendo assim, um aumento da PaO2 e do volume expiratório final.
Gattinoni et al (2001)  O autor defende o uso da posição prona como alternativa inicial de resgate da função pulmonar de pacientes com SARA. Observou-se que o posicionamento em prona leva a um aumento significante da oxigenação.
Richard ( 2001) Um protocolo que consistia de duas insuflações sustentadas de 45 cmH2O de pressão de pico, seguidas de ventilação mecânica com parâmetros convencionais, foi aplicado. Observou-se redução do volume corrente, responsável por um desrecrutamento alveolar que pode ser revertido com o uso de nova manobra de recrutamento alveolar, sendo assim considerado transitório, ou prevenido com uso de valores de PEEP adequados após a realização da manobra.
Brower (2001 apud HESS e BIGATELLO, 2002) Este autor utilizou uma manobra de recrutamento alveolar que consistia do aumento dos níveis de PEEP para valores compreendidos entre 35 e 45 cmH2O, por 30 segundos. Como resultado, obteve uma melhora da oxigenação, podendo diminuir os valores utilizados de FiO2 e PEEP.
Richards et al (2002) Foi aplicada uma manobra de recrutamento utilizando uma insuflação com valores de pressão inspiratória entre 40 e 50 cmH2O, associada a um valor de PEEP fixo de 15 cmH2O, por 90 segundos, e posicionamento prona, para a execução da manobra. Neste caso, os autores observaram uma melhora da relação PaO2/FiO2, sem alterações de pressão arterial e saturação de oxigênio ou barotraumas.
Lim et al (2001 apud HESS E BIGATELLO, 2002) Foram utilizados suspiros com aumento de PEEP para valores de até 30 cmH2O, e volume de ar corrente diminuído. Os autores observaram, com isso, melhora da pressão arterial de oxigênio e complacência pulmonar.
Barbas et al (2001) Estes autores associaram o uso de suspiros intermitentes com uma ventilação que utilizava um valor de PEEP, 2 cmH2O acima do menor ponto de inflexão da curva P x V, e volume corrente de 6 ml/Kg. Os suspiros foram realizados com três ciclos de pressão controlada de 40 cmH2O, por 6 segundos, a cada três horas, em um grupo. E em um segundo grupo, foram realizados suspiros com três ciclos, com valores de pressão controlada diferentes (40, 50, e 60 cmH2O), por 6 segundos, a cada três horas. Pode-se observar um maior aumento da relação PaO2/FiO2 e da sustentabilidade dos efeitos da manobra do segundo protocolo.
Fujino et al (2001 apud HESS E BIGATELLO, 2002) Neste caso, foram comparadas a aplicação de 40 cmH2O de CPAP, por um tempo de 60 segundo de apnéia, com uma manobra que utilizava 40 cmH2O de PEEP associada com ventilação controlada a pressão, com um valor de 20 cmH2O de pressão inspiratória, durante 120 segundos. Notou-se assim, um maior recrutamento com o uso do protocolo que utilizava PEEP associado à pressão controlada em relação àquele que fazia uso de CPAP.
Hess e Bigatello (2002) O uso de recrutamento alveolar com CPAP, com valores entre 30 e 40 cmH2O, por um tempo entre 30 e 40 segundos, e a aplicação da manobra com valores altos de PEEP, em torno de 50 cmH2O, foram analisados, ambos associados a um período de apnéia. Observou-se a obtenção dos mesmos efeitos, nos dois casos, contudo, a técnica que utiliza CPAP é a mais recomendada por ser menos agressiva.
Bein e cols (2002) Nesta ocasião, foi aplicada uma manobra de recrutamento alveolar que utilizou um aumento progressivo da pressão de pico, que estava setada entre 25 e 30 cmH2O (modo ventilatório pressão controlada), a cada 30 segundos até atingir o valor de 60 cmH2O, neste nível, foi executada uma insuflação sustentada por mais 30 segundos. Os autores analisaram uma deteriorização da hemodinâmica cerebral além de diminuição importante do metabolismo cerebral e, ainda, ao final da manobra, o aumento da pressão intracraniana e a redução da pressão arterial, resultado em uma diminuição da perfusão cerebral dos pacientes.
Richard – 2002 O autor analisou protocolos de recrutamento alveolar utilizados para trabalhos prévios por Fujino et al (2001), Richards et al (2001), Lim et al (2001) e Gattinoni et al (2001). O primeiro e o terceiro já comentados, o segundo, trata-se de uma manobra relacionando o posicionamento em prona e a utilização de uma pressão de pico de entre 40 e 50 cmH2O por 90 segundos, em apnéia. Finalmente, o quarto protocolo analisado utilizou insuflação sustentada com um valor de pressão de 40 cmH2O. A partir da análise dos protocolos e seus efeitos, o autor concluiu que o sucesso do recrutamento não depende somente da duração da manobra e da pressão aplicada, mas também do mecanismo que provocou a injúria, do estágio da doença e da posição do paciente.
Villagrá et al (2002) Os autores aplicaram uma manobra de recrutamento com uso de um pico de pressão de 50 cmH2O, modo de ventilação controlada a pressão, por 2 minutos, e um valor de PEEP acima do maior ponto de inflexão da curva pressão-volume. Foi observado um pequeno beneficio sobre a oxigenação e uma hiperdistensão regional capaz de redistribuir o fluxo sanguíneo local durante a aplicação da manobra.
Dyhr (2002) Este autor analisou o uso de manobras de recrutamento seguindo imediatamente o fim do procedimento de aspiração endotraqueal aberta. O protocolo utilizado consistiu de duas hiperinsuflações usando 45 cmH2O de CPAP, por 20 segundos, com um intervalo de 1 minuto entre cada manobra. Pode-se observar que o uso de manobra de recrutamento alveolar, logo em seguida ao procedimento de aspiração endotraqueal aberta, diminui rapidamente o decréscimo da PaO2 ocasionada pela abertura do sistema para sua realização.
Patroniti et al (2002) Na aplicação de suspiros intermitentes, um nível alto de PEEP, de até 40 cmH2O foi associado com o uso de BIPAP e pressão suporte. Observou-se o aumento das trocas gasosas e do volume pulmonar, além da redução o trabalho respiratório.
Pelosi et al (2003) A associação dos posicionamentos, em prona e em supina, com o uso de suspiros intermitentes foi realizada. Executando-se três suspiros consecutivos por minuto, com valores de PEEP em torno de 14 cmH2O. Em ambas as posições houve aumento do valor da PaO2 e do volume expiratório final, porém, a posição prona otimizou o recrutamento alveolar.
Okamoto et al (2003 apud BARBAS, 2003) Estes autores aplicaram uma manobra de recrutamento gradativo, com uma pressão controlada de 15 cmH2O e valores crescentes de PEEP que variaram de 25 a 45 cmH2O, com acréscimos de 5 cmH2O de cada vez. Observou-se a manutenção do recrutamento obtido por um tempo de 6 horas, com a utilização de um valor de PEEP para manutenção do efeito.
Halter et al (2003) Neste caso, foi demonstrado que o uso de valores de PEEP após a manobra de recrutamento alveolar são eficientes como prevenção do desrecrutamento.
Bugedo et al (2003) Aplicou-se uma manobra de recrutamento alveolar utilizando aumentos progressivos dos valores de PEEP, até atingir 30 e 40 cmH2O. Os efeitos, analisados através de tomografia computadorizada de tórax, foram um aumento da oxigenação, reexpansão de alvéolos colabados, além de serem acessados achados morfológicos e informações funcionais que podem ser usados para determinação de parâmetros ventilatórios.
Fergusson (2005) Neste caso, os pacientes estavam fazendo uso de ventilação oscilatória de alta freqüência convencional, associada inicialmente com um ciclo até chegar em três manobras de recrutamento alveolar através de insuflação sustentada, utilizando um valor de 40 cmH2O de pressão por 40 segundos. Pode-se concluir, a partir daí, que a combinação de ventilação de alta freqüência oscilatória associada com manobras de recrutamento alveolar resultam em uma rápida e sustentada melhora da oxigenação, bem como do recrutamento.



Para o desenvolvimento desta pesquisa foram analisados artigos científicos publicados entre os anos de 1995 e 2005 em revistas reconhecidas internacionalmente, bem como livros texto atualizados e específicos do assunto e sua abrangência.

Pode-se notar pela análise dos artigos que a manobra de Recrutamento Alveolar pode ser feita de várias formas, as mais discutidas são a utilização de altos valores de Pressão Positiva Expiratória Final (PEEP), de Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP), suspiros intermitentes, o posicionamento em prona e, ainda, a inversão da relação Inspiração:Expiração (I:E). Contudo, não há um consenso de aplicação da manobra, e os estudos desenvolvidos tentam trazer em pauta a escolha de um protocolo adequando a partir de efeitos analisados com evidências clínicas e práticas.

Na ocasião desta coleta de dados, pode-se observar o maior uso do protocolo que utiliza altos valores de PEEP, sendo esta, a forma mais comentada e experimentada pelos estudos analisados, além de ser a que demonstra melhores e maiores efeitos sobre o tratamento de SARA.

A análise dos estudos citados neste trabalho demonstra que, apesar de não existir um protocolo consensual de aplicação do recrutamento alveolar na Síndrome da Angústia Respiratória Aguda, os efeitos da manobra, independente da maneira como esta foi realizada, sofrem influência do estágio da doença, ou seja, o recrutamento alveolar é mais eficiente em pacientes que se encontram em estágios iniciais de SARA. Existem ainda, evidências de maior durabilidade dos efeitos conseguidos, com o uso de valores de PEEP acima daqueles utilizados antes, para prevenção de desrecrutamento alveolar, após o término da manobra.

Pode-se ainda, dizer que o sucesso da aplicação do recrutamento alveolar não está apenas associado com o seu protocolo de execução, e sim a outros fatores que envolvem a situação, como o mecanismo que causou a injúria pulmonar, o estágio da doença e ainda a posição em que o paciente se encontra.

Das propostas analisadas como protocolos de aplicação do recrutamento alveolar, nota-se uma menor preferência quanto ao uso de inversão da relação I:E, que pode ser justificada pela falta de exatidão quanto aos seus efeitos.


Conclusão

Inúmeros estudos foram realizados nos últimos dez anos, mostrando avanços quanto à aplicação da técnica, detalhes de seus efeitos, e melhoramentos quanto a monitorização da sua aplicação, apontando os possíveis riscos e tornando sua prática mais segura e sua ação mais conhecida, e, mesmo que muitas das formas de monitorização ainda sejam distantes da realidade de muitos serviços de terapia intensiva, sua existência permite o conhecimento e o embasamento dos efeitos e possíveis contra-indicações da aplicação da técnica.

Diversos protocolos de aplicação da manobra são defendidos, estudados e têm sua eficácia comprovada. Desta forma, não há consenso quanto à melhor maneira de execução da técnica de Recrutamento Alveolar, sendo assim, a escolha do protocolo a ser usado deve ser feita a partir da particularidade de cada situação, e do risco-beneficio de sua aplicação. Contudo, o uso de PEEP como forma de recrutar alvéolos em pacientes acometidos pela Síndrome da Angústia Respiratória Aguda é a que vem mostrando maior preferência por parte dos profissionais que executam este tipo de tratamento. Esta forma de Recrutamento Alveolar, é ainda, a que tem apresentado melhores resultados e maior durabilidade dos efeitos e benefícios alcançados.

Os efeitos obtidos com a utilização do Recrutamento Alveolar se assemelham, independentemente do tipo de protocolo utilizado. Talvez seja esta a razão da não existência de um protocolo consensual de aplicação da técnica. Observa-se que com o Recrutamento Alveolar, há a abertura de alvéolos previamente colabados, melhora da complacência pulmonar, da oxigenação sistêmica, da mecânica ventilatória, redução do tempo de ventilação mecânica, entre outros efeitos secundários a estes.

De qualquer forma, fica clara a necessidade de desenvolvimento de mais pesquisas a cerca do Recrutamento Alveolar, para que se possa uniformizar sua forma de aplicação, tornando assim, menos empíricos seus resultados e mais segura sua utilização.


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- Publicado em 26/04/06

 


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