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Introdução:
O uso de marcadores bioquímicos do metabolismo ósseo na prática clínica tem se
expandido de maneira considerável. Isto se deve ao surgimento de novos métodos
e de um melhor conhecimento sobre a fisiopatologia das doenças
ósteo-metabólicas em especial a osteoporose.
O tecido ósseo apresenta uma série de características muito peculiares, dentre
elas a grande extensão e distribuição, e a presença de cristais radiopacos.
Estes últimos propiciam o exame do esqueleto de maneira muito simples, através
do emprego de técnicas de absorção de raio-X, quer qualitativas (raio-X
simples), quer quantitativas (densitometria óssea ou tomografia quantitativa).
No entanto, os fenômenos metabólicos, fisiológicos ou patológicos, que podem
atingir o tecido ósseo só afetam significativamente sua estrutura radiopaca
após um lapso de tempo considerável.Isto torna o emprego destas técnicas
limitado para o estudo mais dinâmico, e em curto prazo, do metabolismo ósseo.
Daí o interesse sobre metodologias que possam quantificar substancias que
poderiam representar os processos metabólicos em curso do tecido (Kanis apud
Castro e Saraiva, 2002).
Os marcadores podem ser divididos em marcadores de formação, que refletem a
atividade dos osteoblastos, e os marcadores de reabsorção, que refletem a
atividade dos osteoclastos. Dentre os primeiros destacam-se a fosfatase
alcalina óssea e a osteocalcina e dentre os últimos, são os fragmentos
derivados do colágeno, como as piridinolinas, os C-telopeptideos e os
N-telopeptídeos.
No desenvolvimento desse breve estudo de revisão, serão citados em especial a:
função e a aplicação prática do marcador de reabsorção
telopeptideos-aminos-terminais (n-telopeptideos) como diagnóstico de algumas
patologias que serão citados, o seu mecanismo de funcionamento no organismo, e
os dados estatísticos de sua utilização para homens e mulheres.
O tecido Ósseo:
O tecido ósseo tem como principal função a sustentação do esqueleto e é
sujeito a fraturas quando sua resistência sofre colapso frente a uma força
maior. As fraturas são passiveis de acontecer em qualquer pessoa, em especial
frente a grandes traumas. Entretanto existem situações patológicas em que esta
fragilidade é aumentada, como ocorre na osteoporose, no hiperparatiroidismo,
osteogênese imperfeita entre outras que serão citadas mais abaixo. A
osteoporose é a de maior prevalência na população mundial e, portanto, é a que
recebe maior atenção na literatura mundial. (Cotran, Kumar e Collins, 2000)
Os fatores que interferem na formação óssea podem ser dividido em dois grupos:
fatores intrínsecos e fatores extrínsecos. Os primeiros incluem fatores
hereditários (responsáveis por cerca de 80% do pico final de massa óssea),
raça, sexo e fatores hormonais (hormônio do crescimento, fator de crescimento
dependente de insulina I, estrógeno e testosterona); os fatores extrínsecos
por sua vez, dizem respeito a aspectos nutricionais, fatores mecânicos,
hábitos, presença a aspectos nutricionais, presença de doenças crônicas e uso
de medicamentos. (Cassidy apud Saraiva e Castro, 2002)
A avaliação dos produtos específicos da degradação da matriz óssea fornece
dados sobre o turnover ósseo, ou seja, o índice de metabolismo ósseo. Cerca da
90% da matriz orgânica do tecido ósseo são formados por colágeno tipo 1, uma
proteína helicoidal com ligação cruzada no terminais N e C da molécula e que
forma a estrutura básica e a resistência do tecido ósseo. Os N-telopeptideos
de ligação cruzada com colágeno tipo 1 são um indicador sensível da reabsorção
óssea. São o produto final da atividade osteoclástica, encontrados na urina.
Níveis elevados de N-telopeptídeo indicam elevada reabsorção óssea. Sua
dosagem é importante na osteoporose, em mulheres pós-menopausa, na doença de
Paget e para a monitoração de terapêutica anti-reabsortiva. Entretanto, cabe
lembrar que, mesmo sendo um bom marcador do metabolismo ósseo, valores normais
não afastam de osteoporose nem da necessidade de tratamento (Garnero e Delmas,
1998).
Marcador de reabsorção óssea: N-telopeptídeo(molécula interligadora do
colágeno tipo I):
As moléculas interligadoras do colágeno tipo I são, atualmente, os melhores
marcadores bioquímicos da reabsorção óssea e, portanto, são mais utilizados
mostrando uma boa correlação com estudos histomorfométricos Piridinalina (PYD)
e Deoxipiridinolina (DPD),são ligações formadas no espaço extracelular entre a
porção não helicoidal (telopeptideos) de uma molécula de colágeno depositada
na matriz e resíduos específicos da hélice da molécula vizinha(figura). São
produtos de ligações covalentes geradas entre resíduos de lisina e
hidroxilisina e são específicos para colágeno e elastina maduras. Essas
formações propiciam a estabilização das moléculas de colágeno da matriz óssea.
Durante a reabsorção, pela ação de proteases, são liberadas na circulação nas
formas livres (20%), e ligadas ainda a fragmentos terminais (telopeptideos) do
colágeno (80%). Parte desses telopeptideos são metabolizados no rim,
aumentando a proporção de formas livres na urina para 40%. A PYD difere da DPD
apenas pela presença de um grupo hidroxila, sendo que a primeira tem
distribuição tecidual ampla, enquanto que a segunda é mais específica do
tecido ósseo e correlaciona-se melhor com a cinética do cálcio e
histomorfometria óssea.
Ao contrario das PYD livres, a avaliação dos telopeptídeos do colágeno I
parecem mostrar maior relação com a dinâmica do osso. Podem ser dosados no
sangue e na urina, sendo que uma série de ensaios diferente existe, o que
muitas vezes dificulta sua solicitação e interpretação pelo clínico. Na urina
podem ser dosadas as formas livres de PYD, DPD, e as formas ainda ligadas a
telopeptídeos aminoterminais e carboxiterminais do colágeno tipo I (NTX e CTX,
respectivamente).
Os marcadores de reabsorção presentes na urina mostram um ritmo circadiano com
pico pela manhã e nadir ao entardecer. A diferença de aproximadamente 100% dos
valores entre estes dois pontos mostra a importância da padronização de coleta
(pela manhã). Não sofrem, entretanto, influência da dieta.

Imagem ampliada da estrutura e localização dos
interligados do colágeno tipo I:

Baseando-se na fisiologia do processo de remodelação óssea, os marcadores
ideais seriam capazes de:
- Diagnosticar osteoporose
- Diferenciar pacientes classificados como perdedores rápidos ( e portanto com
maior risco de perda e fratura) dos perdedores lentos, agregando sensibilidade
e especificidade à medida de densidade óssea na avaliação de risco de fraturas
- Direcionar a terapêutica, ou seja, identificar que se beneficiaram das
medidas anti-reabortivas (perdedores rápidos ou de alto turn over) ou das
medidas de aumento de formação óssea (perdedores lentos, ou de baixo turnover).
- Servir de marcadores da resposta à terapêutica
- Monitorar a aderência do paciente à terapia instituída.
Diante dos fatores citados acima relativos aos marcadores bioquimicos, e em
especial o N-telopeptídeo, podemos concluir que os marcadores de remodelação
óssea trouxeram um grande desenvolvimento no conhecimento da fisiopatologia do
tecido ósseo. Porém, a presença de uma ampla variação das concentrações
séricas e urinárias devido às características biológicas e analíticas, ainda
tornam difíceis à interpretação de seus resultados na vida diária.
Referências Bibliográficas:
- Cotran R.S; Kumar V; Collins T: Robbins – Patologia Estrutural e
Funcional. Ed Guanabara Koogan 6 Ed, 2000.
- Garnero P., Delmas P.D. : Biochemical markes of bone turnover –
Applications for Osteoporosis; Endocrinol. Metabol. Clin. Am; 1998; 27:
303 – 323.
- Saraiva K.L. Castro M.L: Marcadores Bioquímicos da Remodelação Óssea na
Prática Clinica, Arq.Bras.Endocrinol.Metabólica, 2002; 46/1: 72 – 78.
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